A uns 700 m em linha recta para nor-noroeste de Alcalar, numa colina destacada na paisagem e que fica, hoje, abrangida pelos lotes 223 e 338 de uma urbanização, identificaram-se vestígios materiais de dois horizontes de ocupação humana. O mais antigo corresponde a um conjunto de quatro hipogeus, criptas escavadas artificialmente na rocha e usadas como espaço de tumulação colectiva por uma comunidade camponesa inserida no território de Alcalar.
O Hipogeu I foi o primeiro a ser descoberto, quando em 1991 se abriram os arruamentos da urbanização, e foi escavado de emergência entre esse ano e 1994 por uma equipa do IPPAR (entidade que então tutelava o património arqueológico) e do Departamento de Antropologia da Universidade de Coimbra, com a colaboração do Museu Municipal de Portimão. Os restantes hipogeus (a que se atribuíram os nºs II, III e IV) foram descobertos por trabalhos de arqueologia preventiva, efectuados no lote 338 por iniciativa particular para minimização do impacte da construção de uma moradia unifamiliar.
A escavação integral desta estrutura revelou duas criptas de enterramento colectivo, escavadas na rocha, com alçado em forma de abóbada e comunicando entre si através de uma passagem estreita e, para o exterior, através de um acesso em rampa, virada às cumeadas da Serra de Monchique. Quando foram identificadas, ambas as criptas se encontravam já danificadas do lado ocidental devido à abertura do arruamento.
A cripta norte, com planta irregular e largamente destruída do seu lado poente, alarga-se para leste, sob a parede rochosa, num «divertículo» de planta subrectangular. Dela separada por uma passagem curta e estreita, abre-se imediatamente a sul uma cripta de menor área, com planta ovalada, onde se conservou aparentemente bastante mais de metade da área original. Em nenhuma das criptas se preservou a totalidade da parte superior mas o arranque, de forma abobadada, atingia na cripta sul cerca de 1,7 m de altura e, nos níveis de escombros acumulados no seu interior, registou-se uma laje de arenito vermelho, possivelmente para cobertura de uma clarabóia.
A natureza dos solos (calcários) permitiu que os restos ósseos se conservassem em condições de podermos conhecer a dinâmica de uso das criptas funerárias. Identificou-se o modo de tumulação dos corpos, os rituais funerários e os gestos de manipulação e redeposição dos despojos humanos e dos artefactos. O estudo dos depósitos revelou que, ao longo de várias gerações, e em dois níveis estratigraficamente diferenciados, tinham sido depositados neste sepulcro, como mínimo, 171 indivíduos, 147 dos quais no nível inferior. Estão presentes todos os escalões etários, de ambos os sexos, evidenciando um bom nível sanitário. No nível de base, nalguns casos mesmo sobre o chão do hipogeu, a ocorrência de inumações primárias é atestada por 30 conexões anatómicas e 5 deposições individuais registadas in situ, quase sempre contidas em células individuais de inumação, constituídas por pedras dispostas em redor dos cadáveres e, nalguns casos, com uma «pedra-almofada» sob o crânio.
Os mortos tinham sido deitados lateralmente em posição fetal ou flectida e junto a cada um deles verificou-se sempre a presença de instrumentos – lâmina de sílex junto ao crânio, machado ou enxó aos pés, conjuntos de contas de colar em pedra e alfinetes de cabeça postiça em osso. Entre os ossários puderam identificar-se algumas «reduções», correspondentes aos despojos de um só indivíduo. Os ossários do nível inferior interpretam-se como resultado da arrumação periódica dos despojos, a fim de garantir espaço para novas deposições, podendo algumas conexões anatómicas corresponder a restos de deposições parcialmente já removidas. Mas os ossários estratigraficamente mais recentes, que integram também mais duas conexões anatómicas, podem ter resultado da manipulação das ossadas de indivíduos não necessariamente sepultados neste local, testemunhando apenas uma última fase de rituais mais complexos.
Quer nos horizontes de base – sobretudo nas áreas periféricas, junto à parede rochosa das criptas –, quer nos horizontes mais tardios do nível inferior, quer no nível sepulcral superior da cripta norte, registaram-se ossários, por vezes acompanhados de depósitos de objectos, a evidenciar que o espólio funerário acompanhava a transladação dos despojos humanos, constituindo-se depósitos de artefactos, apartados e reagrupados em áreas periféricas no interior do sepulcro. Entre o material exumado no Hipogeu I, ocorrem elementos do traje (alfinetes de osso, contas de colar discoidais e bitroncocónicas), furadores de osso, lâminas com e sem retoque, geométricos e pontas de seta de base côncava em sílex, machados e enxós de rochas duras em que predomina o anfibolito e um conjunto de dez placas de xisto gravadas. É significativa a escassa presença de cerâmica, com apenas alguns fragmentos de diversos recipientes e um único vaso completo, hemisférico.
As datações de radiocarbono efectuadas sobre amostras de duas das cinco inumações primárias remetem o nível inferior para 3340-2880 cal BC. Já as cerâmicas associadas aos ossários do nível superior, que incluem um vaso com decoração simbólica, autorizam datar esta segunda ocupação do hipogeu em pleno 3º milénio a.C.
O Hipogeu II foi identificado quando se evidenciou uma mancha de terra compactada, correspondente ao preenchimento de uma depressão no subsolo. As suas características morfológicas são típicas da forma como os hipogeus se destacam ao decapar o subsolo. Neste caso, a natureza funerária do depósito evidenciou-se pela ocorrência de ossos dispersos correspondentes a fragmentos de crânio e de dentes humanos afectados pela actividade agrícola e sem conexão anatómica. Este hipogeu aguarda uma ulterior intervenção arqueológica.
O Hipogeu III foi identificado durante a limpeza das paredes e da base de uma fossa-silo do habitat islâmico (correspondente a um outro horizonte de ocupação humana do local, muito posterior), quando se tornou perceptível a existência de um nível com ossos que se prolongava para nordeste, na base da fossa, que evidentemente havia cortado uma pequeníssima parte da periferia do sepulcro. A escavação arqueológica incidiu apenas numa pequena área periférica do sepulcro colectivo, correspondente à pequena parte (pouco mais de 1 m2) que viria a ser afectada pela construção do acesso a uma moradia. Um pacote de terra de cor avermelhada continha ossadas humanas constituindo ossário mas incorporando algumas conexões anatómicas. O estudo paleobiológico dos restos ósseos humanos recuperados evidenciou a presença de, no mínimo, 13 indivíduos, 7 adultos e 6 não adultos. A amostra de adultos, inclui indivíduos de ambos os sexos, alguns dos quais idosos (> 40 anos). Entre os não adultos, o mais novo teria falecido com cerca de 3 anos. No âmbito da análise paleopatológica foram observados casos de patologia traumática, infecciosa e oral.
Em posição periférica, disposto num «pacote», em depósito secundário, um conjunto de artefactos incluía 3 enxós em anfibolito (afiadas para uso como oferenda funerária), uma lâmina em sílex e 1 goiva em anfibolito. Junto a uma das conexões anatómicas (restos de um tronco com vértebras e costelas), recolheu-se uma outra enxó em anfibolito e outra lâmina de sílex que poderão constituir parte do depósito primário associado ao indivíduo inumado. A parte ainda remanescente do hipogeu, e que constitui a sua maior parte, estende-se sob o jardim, entre o caminho de acesso e a moradia. Esta porção ainda conservada permanece intocada e salvaguardada para uma eventual escavação futura, sendo estes vestígios importantes e imprescindíveis de analisar quando se pretende aprofundar o conhecimento das populações humanas que viveram no fim do Neolítico e no Calcolítico no território de Alcalar.
O Hipogeu IV corresponde a uma fossa escavada na rocha, completamente preenchida com pedras de tamanho médio e grande e terra, notando-se muito bem o recorte na rocha, ao modo de elipse. Escavou-se o suficiente para poder definir a estrutura na qual foram recolhidos muito poucos achados cerâmicos: pequenos bocados de peças feitas à mão e de cronologia exclusivamente pré-histórica. As características da fossa e a sua proximidade com os hipogeus pré-históricos indiciam tratar-se de um outro hipogeu, apesar de não termos recolhido nenhum resto ósseo humano, provavelmente por termos ficado muito na superficie do recheio, o que poderia ser aliás indicativo de estarmos perante uma gruta artificial inviolada. O empedrado no topo superior desta estrutura é similar ao registado nas camadas superiores do Hipogeu I.
Um horizonte mais recente, cronológica e funcionalmente distinto, corresponde a um estabelecimento da época islâmica, com carácter doméstico e produtivo, que evidencia uma permanência no sítio entre os séculos XI-XII da nossa era: estruturas de armazenagem subterrâneas (silos, depois convertidos em lixeira após perderem a sua função original de contentor de reservas alimentares e, assim, colmatadas por terra embalando restos orgânicos, cerâmicas e materiais de construção), fossas-lixeira, um tanque com as paredes rebocadas e uma fornalha, provavelmente relacionada com a actividade metalúrgica.