Agrupamento com dois edifícios tumulares, situado a leste da estrada para a Senhora do Verde. A edificação de Alcalar 7 precedeu cronologicamente a construção de Alcalar 9, de menor porte, mantendo o túmulo mais antigo numa posição de destaque. As escavações arqueológicas revelaram a articulação destes dois edifícios tumulares com espaços cerimoniais posicionados na sua envolvente imediata. Dotados de «dispositivos litúrgicos» que reincorporam pré-existências do 5º milénio a.C. (um menir e duas estelas), esses átrios exteriores foram usados durante muitas gerações mas comprovou-se a «condenação» destes templos funerários, embora a área envolvente dos túmulos tenha continuado a ser frequentada e usada até, pelo menos, meados do 2º milénio a.C.

Os dois edifícios tumulares encontram-se musealizados, tendo sido para isso efectuadas diversas campanhas de escavações arqueológicas e concretizada a sua reabilitação arquitectónica, por iniciativa dos organismos de tutela do Património.

Alcalar 7

É o mais bem preservado edifício tumular de todo o complexo monumental de Alcalar. As escavações efectuadas por Estácio da Veiga em 1882 foram retomadas entre 1987 e 2000, colocando a descoberto uma mamoa de calcário arrumado à mão, com planta centralizada, envolvendo uma construção do tipo tholos, parcialmente escavada na rocha, construída em alvenaria de xisto e grandes blocos de calcário.

A mamoa é contida por um murete em alvenaria de xisto, que circunda toda a construção e se prolonga sobre o enchimento pétreo numa moldura perimétrica. O edifício atinge um diâmetro de quase vinte e sete metros, com uma fachada rectilínea em cujo centro se abre uma entrada, atapetada por uma laje semicircular. De aí, dois degraus dão acesso a um minúsculo átrio intratumular, de onde parte um estreito e comprido corredor de acesso à cripta, que ocupa o centro geométrico do túmulo. O corredor é tapado por grandes lajes de calcário e foi segmentado em quatro tramos, demarcados por ombreiras monolíticas e por soleiras em cutelo. Cada um destes tramos se estreitam progressivamente, dificultando a passagem.

A parte inferior da cripta foi escavada na rocha e o seu chão foi revestido por um pavimento lajeado de calcário. As suas paredes, em círculo, elevam-se em falsa cúpula, que era rematada no topo por duas grandes lajes, registadas por Estácio da Veiga mas hoje desaparecidas, tendo sido mimetizadas na intervenção de restauro. Nas paredes norte e sul da cripta abrem-se dois nichos com soleira e cobertura de grandes lajes. Eram destinados a acolher, cada qual, um cadáver e respectivos atavios. Na parede poente, a eixo do corredor, abria-se primitivamente ainda um terceiro nicho, igualmente recoberto por grandes lajes mas sem soleira.

Diante da fachada, rebaixado no subsolo, foi construído um recinto cerimonial onde, paralelo à fachada e dela afastado cerca de cinco metros, se ergueu um dispositivo litúrgico, construção de traçado linear integrando um pequeno menir, levantado a eixo do corredor. Esse dispositivo parece articulado com uma sacralização da área envolvente ao túmulo, onde, respectivamente a sul e a norte do túmulo mas fora deste, se colocaram duas «lajes-altar», reutilizando estelas de um horizonte de ocupação preexistente. O terceiro nicho, aberto na parede do lado ocidental da cripta, veio a ser entaipado, enquanto o acesso ao interior do edifício foi encerrado com uma estrutura de condenação que, mimetizando uma ruína, selou toda a fachada e envolveu o edifício.

Verificou-se também que o tholos foi profanado pelo topo do lado poente da cripta, sobre a área do nicho ocidental, muito provavelmente em época islâmica, violação que já Estácio da Veiga evidenciara e que veio a provocar a derrocada do tecto do nicho oeste e o afundamento da parte da mamoa que o cobria.

Do conteúdo original do monumento encontraram-se escassos vestígios, que segundo Estácio da Veiga «repousavam sobre diversos pontos do pavimento em completa desordem [enquanto] nos nichos laterais nada se achou». Ainda assim, assinalam-se os fragmentos de um conjunto de vasos de cerâmica e um elemento de pulseira de marfim. Por outro lado, a escavação da mamoa e da área envolvente do túmulo ofereceu um interessante conjunto de materiais, com destaque para os fragmentos de campaniforme recolhidos no nível de preparação subjacente ao cairn e na base do enchimento deste. Esses fragmentos correspondem a vasos de estilo marítimo: dois na sua variante de zonas cordadas e um na variante de linhas horizontais paralelas.

Alcalar 9

É um templo funerário cuja cripta e corredor foram parcialmente explorados pela Sociedade Archeologica da Figueira em Dezembro de 1900, sob a direcção de Pereira Jardim. Trabalhos mais recentes (2003-2007) desenterraram um edifício tumular cuja estrutura interna, do tipo tholos, é construída em alvenaria de xisto e envolvida por uma mamoa de pedras calcárias compactadas ligadas por argila.

O túmulo é contido por um anel de monólitos calcários, com cerca de 12 m de diâmetro, e apresenta uma fachada rectilínea voltada a nascente, no centro da qual se abre o estreito corredor segmentado que dá acesso ao interior do edifício, em cujo âmago se situa a cripta funerária: uma sala escura de planta circular e elevação em falsa cúpula, com dois nichos laterais em lados opostos. Diante da fachada desenvolve-se um vasto átrio, pavimentado com lajetas de xisto, que apresenta evidências de um uso litúrgico integrando lareiras, abundante cerâmica e artefactos líticos. Após um uso cerimonial e funerário (conservavam-se os restos de duas crianças, um jovem, dois adultos do sexo feminino e um adulto maduro masculino, este último depositado em ossário no tramo do corredor junto à cripta), o edifício foi «condenado» mediante a colocação de um talude que envolve toda a estrutura tumular e constituído por lajes de xisto arrumadas à mão, ligadas por argila de cor vermelha. O átrio foi igualmente «condenado» com um empedrado regular - de calcários, grauvaques e xistos -, que o preencheu na totalidade e cobriu as lareiras.

Na base do corredor e da cripta encontrou-se ainda o que restava do enchimento original, com destaque para um ossário preservado sob uma tampa do corredor que permanecia in situ. Este contexto corresponde à deposição secundária de um homem adulto, cujo crânio, colocado dentro de dois vasos em calote sobrepostos, foi rodeado dos restos do esqueleto pós-craniano. De entre o material recuperado neste nível de base destaca-se ainda uma colecção de contas de colar, fragmentos de vasos de cerâmica e um bétilo em calcário com decoração do tipo Moncarapacho.