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Monumentos Megalíticos de Alcalar

História/Enquadramento Histórico:

Junto ao lugarejo de Alcalar, a meio caminho entre os areais do Alvor e a Serra de Monchique, existiu outrora uma grande aldeia pré-histórica do 3º milénio a.C., da qual subsistem restos arruinados. Este lugar foi o centro hegemónico de um território habitado por comunidades camponesas dispersas em pequenos povoados, nas margens da Ria de Alvor, nas férteis terras interiores do Barrocal e nas vertentes meridionais da Serra de Monchique.

Corredor na Cripta de Alcalar

Essa paisagem humanizada estendia-se pelo interior da orla marítima algarvia e era marcada pela ria flandriana do Alvor, antiga realidade fluvial e lagunar profundamente entalhada na Baía de Lagos, com enseadas interiores, outrora existentes em Odiáxere e na Penina, e com esteiros hoje assoreados mas correspondentes às actuais várzeas das ribeiras de Odiáxere, Arão, Farelo e Torre. Entre o 5º e o 2º milénios a.C., esse território oferecia uma ampla gama de recursos, aproveitados pelos grupos humanos que ali habitaram. O seu estudo geoarqueológico tem evidenciado um processo histórico de transformação económica e social, que autoriza fazer remontar ao 3º milénio a.C. a formação prístina do estado neste extremo sudoeste do espaço atlântico-mediterrânico.

Ossadas na Cripta de Alcalar

Apesar da posição periférica do território de Alcalar, as suas personagens mais notáveis mantiveram durante o 3º milénio a.C. relações políticas com os outros centros de poder do Calcolítico do arco atlântico-mediterrânico do Sul da Península Ibérica , promovendo-se socialmente através da segregação das áreas de vivenda e de armazenagem dos produtos, da monumentalização dos recintos do habitat, da ostentação de objectos sumptuários e armas e da manipulação de produtos ideológicos, bem como da construção de templos funerários monumentais. A arquitectura desses monumentos relaciona-os com o Megalitismo [pop-up 5.6] do ocidente europeu e com os numerosos espaços de tumulação colectiva [pop-up 5.7] caracteristicos da europa atlântica e mediterrânica do Neolítico e das primeiras idades dos metais.

Pormenor do corredor intra-tumular do monumento

O Conjunto Monumental de Alcalar

Os restos arruinados do Povoado Calcolítico de Alcalar estendem-se por uma área de aproximadamente 20 hectares. Em finais do Neolítico, numa fase de intensificação da ocupação desta parcela do territorio, datável de 3200 a 2800 a.C., localizam-se ambientes funerários dispersos na periferia desta grande aldeia pré-histórica. Um edifício tumular monumental com cripta dolménica poligonal e corredor alongado, conhecido como Monumento 1 de Alcalar e a necrópole de Monte Canelas , com pelo menos quatro hipogeus, criptas escavadas artificialmente na rocha e usadas como espaços de tumulação colectiva aparentemente desprovidos de monumentalidade edificada. Assinala-se ainda o uso funerário de cavidades naturais no Serro do Algarve (caverna da Mulher Morta ) e em Poio.

Monumento 7 de Alcalar

No período Calcolítico, a partir de 2800 a.C., na envolvente imediata da grande aldeia e a uma cota inferior à do cabeço amesetado da sua acrópole, foram edificados, ao longo de várias gerações, cerca de duas dezenas de edifícios megalíticos e respectivas áreas cerimoniais conexas.

Este complexo funerário monumental apresenta uma grande diversidade de soluções arquitectónicas, que usam como material de construção a pedra da região (o calcário local e o arenito e o xisto da área envolvente) e como material de revestimento e ligante a argila local. Os arqueólogos procuraram sistematizar o evidente polimorfismo da estrutura interna dos túmulos em dois "tipos": 1) dólmen e 2) tholos, este com três variantes: 2.1) com cripta e corredor ortostáticos (arrancando do topo dos ortóstatos a falsa cúpula em alvenaria de pedra ordinária), 2.2) com cripta totalmente em alvenaria de pedra ordinária (alçando-se em falsa cúpula) e corredor ortostático, e 2.3) com cripta em falsa cúpula e corredor igualmente em alvenaria de pedra ordinária. A observação de alguns dos núcleos da necrópole monumental revelou uma organização hierarquizada dos edifícios tumulares e a sua constituição durante um tempo dilatado. Porém, uma vez construído, cada monumento passava a incorporar a paisagem humanizada, num sistema coerente - e cronologicamente prolongado - de "ritualização" da mesma, assinalando e organizando o espaço em termos simbólicos, sob o poder propiciatório dos antepassados. Assim, no agrupamento tumular central, se o Monumento 1 ocupa o ponto mais elevado da colina onde foi edificado nos finais do 4º milénio a.C., à sua volta levantaram-se, durante o 3º milénio a.C., seis outros túmulos de menor porte, que confirmam a continuidade no ritual e a complexificação do espaço funerário ao longo do tempo. Também no agrupamento tumular oriental, a edificação do Monumento 7 em meados do 3º milénio a.C. precedeu cronologicamente a do Monumento 9, um edifício tumular de menor porte e que manteve o túmulo mais antigo numa posição mais destacada.

Estes testemunhos, atribuídos ao chamado Calcolítico do Sudoeste da Península Ibérica, integram uma complexa "arquitectura de poder", que corresponde a modelos que tiveram uma ampla aceitação entre as élites atlântico-mediterrânicas constitui, segundo alguns pré-historiadores, uma das evidências materiais de uma sociedade classista inicial na região do actual Algarve no 3º milénio a.C.

Nessa mesma época, alguns ambientes funerários eram «segregados» para a periferia do centro de poder (como os edifícios tumulares de Monte Velho , um núcleo funerário com três sepulcros de tholos, o provável tholos de Poio ou a fase tardia de uso dos hipogeus em Monte Canelas). As prospecções concretizadas nos campo em redor da necrópole de Alcalar permitiram identificar pequenos núcleos de vivenda, que se interpretam como "lugares dependentes", tributários do "centro de poder". Mais a norte, um conjunto de necrópoles pré-históricas localizadas em torno das Caldas de Monchique oferecem um notável contraponto à comunidade sepultada no conjunto monumental de Alcalar. Estes monumentos das Caldas de Monchique dão testemunho de uma bolsa com forte personalidade cultural, resistente às mudanças de civilização a que os grupos do litoral e dos portos fluviais mostravam maior abertura.

Corredor na Cripta de Alcalar

Itinerário de visita aos monumentos

Os edifícios tumulares que estão directamente associados ao Povoado Calcolítico de Alcalar constituem com ele uma só unidade orgânica e compõem no seu conjunto uma necrópole megalítica. Os monumentos megalíticos de Alcalar caracterizam-se pelas suas mamoas de planta centralizada e são destrinçáveis entre si pelo eclectismo das soluções arquitectónicas, que reflecte a sua diversidade cronológica e funcional. Localizados sobre as colinas que delimitam o Povoado Calcolítico pelo lado norte, conhecem-se os túmulos de Vidigal Velho (= Monumentos 12 e 13), do agrupamento tumular ocidental [pop-up 5.14] (= Monumentos 8, 11, 14 e 15), do agrupamento tumular central [pop-up 5.15] (= Monumentos 1, 2, 3, 4, 5, 6 e 10) e do agrupamento tumular oriental [pop-up 5.16] (= Monumentos 7 e 9). Direccionados para a progressiva musealização da necrópole megalítica, os trabalhos efectuados nos monumentos 7 e 9, permitiram o estudo e reabilitação destes dois edifícios tumulares e da sua área envolvente. Nesta, evidenciam-se áreas exteriores usadas com fins cerimoniais e que compreendem dispositivos litúrgicos e elementos de "sacralização" do espaço. Igualmente três dos monumentos do agrupamento tumular central - os nºs 1, 3 e 4 - estão acessíveis aos visitantes..

Memórias do Monumento

Para norte da barra do Alvor e até ao sopé da Serra de Monchique, os testemunhos da antiga paisagem cultural chamaram, desde o século XIX, a atenção de arqueólogos como Estácio da Veiga, o fundador do Museu Arqueológico do Algarve, Santos Rocha, Leite de Vasconcelos, Abel Viana, José Formosinho, Veiga Ferreira.

Cripta de Alcalar- antes dos trabalhos arqueológicos

Nas áreas de ocupação humana antiga que se estendem para norte da antiga enseada interior da Quinta da Torre até ao Moinho da Rocha, e que abrangem Poio, Alcalar e Monte Canelas, continuam porém ainda até hoje por localizar com precisão muitos dos testemunhos que, já no seu tempo, Estácio da Veiga assinalava.

Para sul do Moinho da Rocha, ele reportou numerosos achados ocasionais datando do Neolítico e Calcolítico. Junto à Quinta do Morgado da Torre, Bernardo Sá deu a conhecer duas criptas sepulcrais abertas no subsolo calcário e, no sítio da Mulher Morta, Santos Rocha explorou a gruta necrópole do Serro do Algarve (onde nos finais do século XX viriam a ser realizadas novas sondagens). Os menires recentemente localizados junto a Monte Canelas e à Quinta da Torre, podem em parte remontar ao 5º milénio.

Trabalhos arqueológicos em Alcalar

Para sul da Mexilhoeira Grande, foi ainda Estácio da Veiga quem referenciou no Monte da Rocha (Quinta da Lameira) um monumento «megalítico»: nessa área, têm vindo a ser referenciados menires e estelas em Gasga, Cruzinha e Lameira, e também pequenos habitats com restos de talhe de sílex e de grauvaque, artefactos de pedra polida e rara cerâmica têm vindo a localizar-se nas margens da Ria de Alvor. Tal como junto à Mexilhoeira Grande e ao longo dos cursos das ribeiras da Torre, do Farelo, do Arão e de Odiáxere, parte deles em locais onde já o Padre Glória recolhera achados ocasionais.

Mais recentemente, a Via do Infante atravessou dois povoados calcolíticos, no sítio de Barradas (junto a Arão) e na margem oriental da Ribeira da Torre. E confirmou-se a ocupação do sítio de Areias (em torno da paroquial de Mexilhoeira Grande) no 5º e 4º milénio a.C.Mas foi junto à pequena localidade de Alcalar que os arqueólogos localizaram o mais extraordinário conjunto monumental deste território, quando em 1880 António José Nunes da Glória, prior de Bensafrim, fez ali as primeiras descobertas. Em 1882, contando com a colaboração do Padre Glória, Estácio da Veiga escavou outros sete monumentos, «durante trinta dias de constante exploração». Os sepulcros então explorados — Monumentos 1 a 7 e 10 — viriam a ser conhecidos pela comunidade científica internacional através das Antiguidades Monumentais do Algarve [6.1], obra onde Estácio da Veiga publicou os excelentes levantamentos desenhados no terreno pelo Padre Glória.

Em 1897, José Leite de Vasconcelos usou os abundantes dados coligidos por Estácio da Veiga na sua obra Religiões da Lusitânia [6.2]. Desse modo, reeditou os desenhos do Padre Glória e fez uma breve descrição dos monumentos conhecidos.Mais tarde, em Dezembro de 1900, Joaquim Pereira Jardim encontrou, e escavou para a Sociedade Archeologica da Figueira [6.3], dois outros sepulcros megalíticos, referenciados como Monumentos 8 e 9 (na sequência da numeração das Antiguidades de Estácio da Veiga). António dos Santos Rocha, presidente daquela ilustre agremiação, explorou outros três monumentos, afastados para oriente, junto ao Monte Velho, que constituíam um novo núcleo sepulcral.

Em 1933, José Formosinho, fundador do Museu Regional de Lagos [6.4], no âmbito de trabalhos de conservação da necrópole de Alcalar, escavou outros dois sepulcros, por ele publicados apenas em 1953 e que passaram a ser referenciados como Monumentos 11 e 12. Na mesma ocasião, identificou os restos do monumento 13, deixando indicações imprecisas sobre outros dois túmulos.Entretanto, em 1943 e, mais tarde, em 1959, o casal Georg e Vera Leisner incluiu o conjunto sepulcral de Alcalar em dois dos tomos do corpus que publicaram sobre Die Megalithgräber der Iberischen Halbinsel [6.5] e neles coligiu os materiais pertencentes às colecções do, então, Museu Etnológico, bem como dos Museus da Figueira da Foz e de Lagos.

Só muitos anos depois das escavações de José Formosinho se adquiriram para o Estado Português os terrenos onde se situava uma parte da necrópole: em Novembro de 1975 o Estado realizou a aquisição parcial de Alcalar 7 e em 1982 adquiriu o prédio rústico denominado Courela das Minas, onde se localizam os monumentos 1 a 4. Nestas duas parcelas, a Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais colocou vedações de protecção, que, finalmente, davam algumas garantias de salvaguarda dos monumentos.Apesar de já assinalado por Estácio, a área de habitat correspondente aos túmulos de Alcalar só foi reconhecida pelos arqueólogos em 1975. Mas foram as sondagens ali realizadas por José Arnaud e Teresa Gamito, no Verão de 1979, que vieram despertar um renovado interesse pelo conjunto monumental pré-histórico.

Uma campanha de limpeza e diagnóstico do estado de conservação de Alcalar 7 por eles realizada, a que se seguiu uma proposta de recuperação da ruína, motivou a intervenção directa do Estado Português, e a partir de 1987, uma equipa de arqueólogos trabalhando por conta da entidade de tutela do Património tem vindo a concretizar a paulatina execução de um Programa de Estudo, Salvaguarda e Valorização de Alcalar [6.6], que compreende a reabilitação dos monumentos megalíticos com base no seu estudo: integrado com as pesquisas no lugar onde habitaram os respectivos construtores e com o a investigação científica do território, de acordo com os métodos próprios da geoarqueologia. Os materiais provenientes desta fase mais recente das pesquisas tem vindo a ser incorporado nas colecções do Museu Municipal de Portimão [6.7].

Outras visitas recomendadas

  • À descoberta da paisagem cultural de Alvor-Alcalar-Monchique
  • Itinerários Arqueológicos do Algarve

Informação complementar

Câmara Municipal de Portimão
Região de Turismo do Algarve