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O Dia Internacional do Cigano  e o Campo Westerbork

No dia 8 de abril, a Direção Regional de Cultura assinala o Dia Internacional do Cigano, ao mesmo tempo que dá a conhecer um sítio distinguido com a Marca do Património Europeu, o Campo Westerbork, situado na Holanda.


O Dia Internacional do Cigano foi instituído pela Organização das Nações Unidas, tendo sido escolhido o dia 8 de abril, pois foi nesse mesmo dia do ano de 1971 que decorreu o 1º Congresso Mundial Roma/Cigano, em Londres. Este dia pretende comemorar e reconhecer a riqueza da história e da cultura deste povo nómada, a maior minoria étnica da Europa e ainda uma das que mais sofre de descriminação.


Vejamos o que relaciona a Comunidade Cigana com este sítio Marca do Património Europeu.


O Campo Westerbok foi construído no verão 1939, pelo governo holandês, inicialmente com o propósito de acolher refugiados judeus que fugiam de Alemanha e da Áustria. Ainda antes da 2ª Guerra Mundial, cerca de 4500 ciganos (Sinti e Roma) viajavam pela Holanda, como músicos ou como vendedores ambulantes. Em maio de 1940, dá-se a invasão nazi da Holanda e os ciganos foram proibidos de viajar.


A partir de julho de 1942, já com a ocupação nazi, Westerbork passou a constituir um campo de trânsito gerido pelas SS (Schutzstaffe), para onde os judeus eram levados antes de serem transferidos para os campos de concentração nazi, como o de Auschwitz – Birkenau ou o de Sobibor. Westerbork passou a ser conhecido como “a porta de entrada para o inferno”.


A 14 de maio de 1944, os ocupantes nazis decretaram que todas as pessoas que pertenciam à comunidade Roma e Sinti, ou que tivessem qualquer semelhança com a comunidade cigana, deveriam ser transferidas para Westerbork.


No dia de 16 de maio, cerca de 578 ciganos foram capturados e conduzidos a Wersterbork. Mas também judeus continuaram a ser para ali levados. Entre eles, estava Anne Frank, que ali chegou a 4 de agosto de 1944, antes de ser transferida para Auschwitz.


Mas, no dia de hoje, importa dar luz ao rosto de Settela Steinbach, que ficaria para a História, associado ao terror nazi. Anna Maria (Settela) vivia, nessa altura, com a sua família de 9 irmãos, numa caravana perto de Eindhoven, e foi também uma das muitas crianças que foi levada para Westerbork, no dia 16 de maio.


Passados três dias, Settela foi transferida de Westerbork para Auschwitz-Birkenau. O início desse transporte, já nos vagões do comboio, foi filmado pelo prisioneiro Rudolf Breslauer, que dá a conhecer o rosto desta criança, de 9 anos, no dia da fatídica viagem, a 19 de maio de 1944.


O pequeno registo fílmico, de apenas 7 segundos, foi largamente utilizado em muitos documentários sobre este período associado à repressão e ao terror nazi. Durante muito tempo, pensou-se tratar de um rosto sem nome, sem identidade, provavelmente uma judia, conhecido como “a menina do lenço”, por apresentar na imagem a cabeça coberta, mas para sempre o rosto do Holocausto.
Décadas mais tarde, apenas nos anos 90, se conseguiu identificar os números dos vagões onde eram transportados os ciganos (Roma e Sinti) e o nome desta menina. Settela estava entre os 244 romanis que eram transferidos nesse mesmo dia. Esta imagem da criança de rosto assustado, a espreitar por uma porta ainda por fechar, passou também a representar os cerca de 500 mil a 1 milhão e meio de Roma e Sinti que foram aniquilados nos campos de concentração nazi.

 

Westerbork apresenta uma complexa, ambivalente e bizarra história. Após a 2ª Guerra Mundial, os holandeses suspeitos de terem colaborado com os nazis foram ali feitos prisioneiros; mais tarde, chegou a ser usado como campo de retornados das ex-colónias holandesas.


Hoje, podemos encontrar neste lugar um Museu e Centro de visitação em memória das 102 mil vidas que se perderam. O campo Westerbork foi distinguido com a Marca do Património Europeu, no ano de 2013, pois está associado a processos cruciais da História Europeia, como a ocupação, a perseguição e a descolonização.


O anti-semitismo, assim como a segregação do povo cigano, ou de qualquer outro povo, representam uma das formas mais vis de desumanidade. Hoje, Dia Mundial do Cigano, importa mais do que tudo promover os valores humanistas que abraçam todos os povos e etnias, valores que o projecto Marca do Património Europeu tem a faculdade de promover.


Sabia que existem 4 sítios em Portugal distinguidos com a Marca do Património Europeu? E um deles na região algarvia? Para mais informações sobre este clique aqui.

 

8 abril 2022